quarta-feira, novembro 30, 2005

Hoje é (diziam eles na televisão) uma data "especial". Informem-se ou deduzam o porquê, pois serviu também de mote para este texto:


Ausência de dedicatória

Dorme descansado,
pois não te encobrirei com um manto devoto
de aborrecido reconhecimento.
Não renunciarei à autonomia deste meu acto de escrita,
idêntica a todas as outras autonomias
que tanto prezo.
Continuarei a escrever serenamente
e tu continuarás a dormir,
não no falso túmulo palaciano de lembrança documentada,
à janela de um distinto segundo andar,
nem no túmulo de madeira dura, banalmente,
num indistinto Mosteiro importante.
Estarás em lugar nenhum, evidentemente,
e eu estarei aqui,
neste lugar que não é propriamente nenhum,
mas que facilmente passa por tal;
daqui me dobro sobre a tecnologia
numa ocasião marcada pelo acaso
relativamente raro,
para te pedir que, de todos esses sítios
onde tu não estás,
te recolhas por meio instante,
o suficiente para que retornes ao patamar inferior
da escadaria de um só sentido
e albergues fictício
este desalojado sentimento de fraternidade
entre uma pessoa que não sabe escrever
e uma outra, esta de nome,
que se escreveu e se soube
como nenhuma outra.
Sossega, pois como te digo,
não te despertarei de onde não podes acordar
para te imolar com tortuosas cópias
de estruturas adulteradas
em parvoíce fanática de quem nunca fui
nem compreendi,
nem pretendi compreender ou ser.
Só estendi os braços, do alto
de um túmulo palaciano de verdade documentada
pela Física,
se a aceitarmos como a linha fina
que arranca impiedosamente o conceito de realidade
às subtis garras do abstracto,
e assim o demarca do seu simétrico,
para deste sítio que é tudo menos um Mosteiro
em termos de alma,
acenar a uma pessoa como as demais,
passageiro,
e a seguir aconchegar o cobertor que me demarca as pernas
deste rigor de quando se acerca Dezembro
pouco sorrateiramente.
O mesmo Dezembro que me aparta
da pessoa que foste, como todas as outras,
e que decidiu deixar à parte
uma falsa identidade, pois está escrita,
para advertida ou inadvertidamente inspirares
não a escrita,
mas a noção inviolável e palaciana de que,
para lá da realidade difusa e abstracta
está um lugar nenhum de pessoas
avassaladoramente iguais a todas as outras.
Concretos em mil e um sonhos,
pretenciosos em mil e uma opiniões,
somos todos o homem que, do alto do seu palácio tumular,
vê passar um barco sob o fumo do Tejo
para se pintar em hipotéticas palavras,
argumentos,
murros,
pontapés,
acções,
desilusões
e pensamentos apenas,
passando fluvialmente sob o fumo de um cigarro,
sob o ponto de vista de outra pessoa qualquer
que pode nem existir fora da nossa cabeça.
Não podem sobrar dúvidas
após estes anos de existências,
historiadores,
sociólogos,
entertainers
e de namoros em parques,
que tirando esta construção
de amores, personalidades, e histórias de vida,
nada sobra.
Seremos pois todos, como tu terás sido,
ou como pelo menos te atribuo teres sido
(mas é o suficiente para o seres
neste dia falso, em que é quase Dezembro) -
uma Mensagem por passar.
Acredito pois piamente
que não receberias a minha Mensagem
incontornável,
pelo que me privo de aborrecida gratidão
ou de uma dedicatória inútil,
e, na medida do possível,
de estranhas conversas metafísicas
e cadavéricas.
Continuarás sossegado no teu sono
de prosa vazia,
que preenche hoje a poesia desassossegada
de um outrora inqualificável,
e eu sossegarei parcialmente
esta minha Mensagem, que não está na ponta dos dedos,
nem no coração,
nem em qualquer outra parte
que não as tocas onde se aninham as confusas vontades,
os sempre actuais intervalos dos intervalos,
enquanto te imagino a sorrires, categórico,
face a qualquer incutida grandiosidade inconsciente,
que somente merecerias
num mundo em que, em vez da Física,
existisse a grandiosidade como forma de distinção.
Sorririas pragmático, sarcástico talvez,
e mergulharias noutros devaneios atípicos
até passar o próximo Esteves.
Não o farás, e provavelmente nem o farias...
a não ser aqui, referencialmente.
Hmmmm
Vou mudar de opinião, bruscamente.
Afinal fá-lo-ás, neste actualmente.
Não tu, que dormes em vácuo,
mas o outro tu, o único -
o imaginário de milhares de pessoas
como tantas outras.

segunda-feira, novembro 28, 2005

Boas.

Hoje idióticamente banal.

Desperspectivado.

O sempre que volta e renega o efectivo.

E em redor, meandros de gente que se escreve e requinta igual, com convicção comportamental instantânea, destruindo ameaças de inadvertida realidade e denegrindo as cores dos casebres alheios e espíritos independentes.

E sorrisos que se fecham, por túneis de ecos assustados. Condecorações de abstinência verbalizada em faces comuns, desfiguradas e invísiveis no mundo contrário por imaginar. Clara e apressada incompreensão fulgurante, asmática no refutar da doença.

Por tradições redescobertas farsas, nado em contra-corrente evitando redimir-me de religiões livres, em verdade. Evitando vangloriar por força de agregados, evitando empalhar a presença, evitando recair no terramoto mentiroso.

Sem empunhar parâmetros de condição quantitativa, referi-os após mais um desenlace. A partilha pontual, com a ressalva de o ser. Sem presságios nem intuitos de Lei.

Ainda, algum receio, alguma lágrima, pelo que rompe, pelo que escorre, pelo que a Natureza não se inibe de vetar. O sangue nas veias por envenenar dócil. O desterro de ideias, tragédias periódicas na transpiração de células a pouco desporto.

O multicolor a cinzento.

Contracção determinante e afónica de noções de mal denso, com a ligeireza que esperneia em torno do abraço indesejável.

Chamem-se-lhe nomes grandes.. Pompeia, demência, inspiração lunar..

O chamamento - a arma do povo cantante.

E mais restos. E mais réstias - ou ainda me vão culpar de sexismo.

Ena. Até humor escolar já aqui faço. :D Qualquer dia, letras de mariah carey, e todo um universo pintado.

Agora claro, há que acabar com isto, em desarmonia, em tons de bah. Tem de ser. Vão-se foder se repudiam aquilo que não sabem. Vão-se foder se não querem saber de mais uma página bolorenta, de mais uma crónica de escura arte diluída em decepção, de enganadoras montras de aversão se vistas como tal - vão-se foder se não estão dispostos ao Erro.

Vão-se foder, e fiquem bem.

Eu vou fazer o que prometi. Tapar esta garrafa destilada de leitores quase palpáveis, incómodamente quase. Varrer um soalho incómodamente pegajoso de pervasividade feminina. Repetir o sono que amansa os muros. Roncar inconsciência até ao mais sagrado décibel. Entoar valas de incontinência enquanto trincheirados se preparam os lugares-comuns. E aos poucos, ganham terreno...

Qualquer dia serei vencido, e então cederei. Trabalharei dobrado para eles, viverei e conviverei como eles, serei um deles. Mas continuo a lutar e a lutar. Em escassez de armas, de forças, de alternativas capazes. Tenho-me a mim, e à liberdade de lutar. Anos a fio.

Enquanto se desenham pinturas rupestres em posts de pulsantes exageros caricaturas, soa a velha máxima, por ínfima que seja - a esperança é a última a morrer.

domingo, novembro 06, 2005

A magia de um acorde solto crepuscular encerra todo o drama metamórfico da humanidade. Toda a concepção imesurável é sugerida, toda a definição está polvilhada de um acompanhamento ébrio, mais fino que o do ar, e conducente da extensão global, caótica, profana, sensível, promissora, sedutora, um vácuo magnético fundido com o encurtar das distâncias. O mote é simples, como uma válvula, e os pensamentos nascem precipitados, numa escadaria sem topo. Trepam-se degraus sem unicidade, mal conexos, pouco ou nada sólidos, em imensidão. Constroem-se algumas palavras que fragmentam a hipotética longínqua frase em vidro. Entretém-se camadas de carnaval com máscaras de rotatividade incontornável. Abana-se o leque da fornalha universal e sopram-se reparos à cascata implosiva. Desvanecem-se os objectivos quaisquer num impressionismo em dominó aleatório. Faz-se. Arrastos convulsos. Zombies. Berros ocos, distâncias surdas, fonemas loucos. bzbzbzbzbzbzbzbzbzbzbzbzzbzbzbz